
O homem se esforça para ver além. Posta as mãos um pouco acima dos olhos para protegê-los do sol forte. Nada. Continua a vislumbrar apenas o mar, praticamente sem ondas. Há algo ali, é fato. Em meio à calmaria das águas há uma pequena porção de ondulações circulares evidenciando sua teoria. Sob a água, é claro, pensa com convicção. Outrora teria raciocinado mais, está cansado.
Senta-se na beira do deque de madeira e lança linha ao mar. Pescar certamente levará embora a sensação de companhia. “Que coisa”. Nada de peixes, nem fisgadas. Tudo muito parado, mesmo debaixo d’água. Retira a linha para trocar a isca, talvez fosse esse o motivo. Da minhoca para o pedaço de pão semimastigado. “Vai resolver”.
Cantarola. Já que nada pesca, ao menos o som de sua voz quebra o incômodo silêncio. Uma fisgada, a linha se movimenta. Uma segunda, uma terceira, mas nada de pegar o safado. Os dedos puxam incessantemente a linha para confundir a presa, mas nada resolve. “A minhoca se balançando teria feito melhor que o pão”.
Cansado desiste. Que fique na água o peixe. Tão logo pensa nisso revê as ondulações, bem próximas do deque. Sente um calafrio e pensa em sair dali, mas não o faz. Fugir de ondinhas não era coisa de homem. “Negócio é entender”.
Fecha os olhos e põem-se a imaginar: Vê na água, exatamente no meio do circulo ondulatório, um peixe. Fita o ser pequeno com olhos curiosos, sentindo o mesmo vindo do outro.
Está ali o hobbie e a fome. Mas não uma fome arrebatadora, quem sabe apenas a vontade de comer algo diferente. Ou mesmo de sentir-se o caçador - comer aquilo que em suas garras cai e que, com eficiência, é pego. “Fico com a segunda”. Sorri.
Irrita-se. Abre os olhos e nada mais de ondulações. “Estou ficando louco... ou velho”. Ri da própria frase, como se o peixe a recitasse. Mas alguns minutos bastam para dar-se conta de que ainda há algo estranho por ali. Esfrega os olhos, abre-os o máximo que pode e avalia a imensidão de água à sua frente.
Da água surge o mistério, mas não emergindo desta. Esteve o tempo todo ali. Aquela figura estranha parece ser feita da mais pura e cristalina água. Não consegue, o homem, definir exatamente a forma, esta muda a cada minuto e dela gotas de água nascem caindo sobre a superfície oceânica. A coisa começa a crescer, expandir-se. Uma onda se forma, enorme. Avança contra ele com rapidez e o engloba. Sente o gélido tocar do líquido, mas nem sequer se move. A onda não o esmaga, não o fere. Está ali são e salvo.
Olha para as mãos, não estão mais enrugadas. Jovem, sente o sabor da juventude, levanta-se e num piscar de olhos se atira na água. Nada, nada muito até desaparecer no horizonte.
Uma mulher chega ao deque. Abaixa-se perante os artefatos de pesca do marido. Olha para o mar, não o vê. Olha em torno – nada. “Onde estará?”.
Alexandre C. Martins – 22 de agosto de 2008