Geminiano


Infeliz sopro geminiano
Num segundo tardio se vai
Num minuto seguinte retorna

Não há consistência sem razão
Nem amor colhido rasteiro
A mente vence o coração
Desagregado e consciente

Instabilidade ou coesão?
Liberdade ou prisão?
Amor ou paixão?

Infeliz sopro geminiano
Num segundo tardio se vai
Num minuto seguinte retorna

O espiral não para de girar.

Alexandre Martins – 15 de fevereiro de 2009

Beltane

Fogueiras trepidam bruxuleantes
Enquanto o cervo se aproxima.

E a rainha de maio

Em infinita sabedoria
No leito verde o aguarda
Para a virgem adorada
Tornar-se a amante idolatrada...

O batuque firme e forte
Dá graças à divindade
Que com sua consorte
Vem a terra dizer adeus à morte!

A luz

Ilumina o campo.
E a escuridão abandona a terra
Enquanto no ventre da mãe divina
Palpita a vida, pura e eterna!

Alxandre Martins - 29 de agosto de 2008

Visão Longinqua


Escuridão, olho para cima e vejo apenas a copa das árvores. Tensão, de um lado para o outro busco algo desconhecido - como entender? Ando rápido tentando encontrar um ponto familiar, a mata fechada me intimida e mexe com meus sentidos embaralhando-os diversas vezes.

Estou perdido. Embarquei, tempos atrás, numa perigosa viagem, na qual me propus mergulhar no mais infinito de meu próprio ser e só agora entendo a magnitude do ato. Continuo a andar, mas com milhões de pensamentos desorganizados em manifestação. Preciso retomar o controle. Paro e sento numa pedra recoberta por limo. Gosto da sensação de me recostar na superfície úmida e gelada, tenho aqui o primeiro descanso desde o início da investida. Tudo começa a se modificar.

A mata me embriaga, meu corpo pesa e creio não poder levantar. O vento, os poucos raios de sol, a sombra das árvores, tudo isso se conecta a mim. Sentidos aguçados. Enxergo como nunca, e ouço ainda melhor. O som da cachoeira próxima é tentador, só mesmo este para me fazer novamente caminhar.

Logo a queda d’água se estende a minha frente. O que dizer? O que pensar? Corro para água, preciso banhar-me. Gelada e cortante, a dor se torna prazer, não sou mais corpo, mas sim, espírito, o peso da massa corpórea me abandona e posso então sentir com toda a intensidade a energia emanada pela natureza.

Barulho, galhos quebrando, algo pesado se aproxima. Preto, esse é o tom do urso que pára diante de mim. Fecho os olhos por segundos e ao abri-los estou aderido ao animal. Somos apenas um - eu e ele. Resolvo correr mata adentro, o vento forte torna a corrida ainda mais prazerosa.

Da mata fechada ao campo aberto, o sol brilha intensamente ferindo meus olhos, abro os braços, agora estou na grama deitado e exausto. Deixo-me dominar pelo sono e aos poucos perco a consciência.

Sinto o piso áspero de minha sacada em meu apartamento. Abro os olhos e nada vejo, e nem o poderia. Entretanto, minha viagem foi completa e agora posso finalmente continuar.

Alexandre C. Martins - 28 de agosto de 2008 (data de postagem - o texto é antigo)

Anotações Inacabadas


Levantou cedo, passou o café e sentou-se a mesa. O dia ainda nascia timidamente e o sol buscava espaço por entre nuvens espessas. O vento forte dava a sensação invernal a qual Gustavo tanto apreciava, mesmo que o outono ainda não tivesse chegado ao fim. O relógio marcava ainda seis da manhã de um domingo sem afazeres e anunciava a noite em claro que acabava de ser vencida pelo dia inevitável. “Finalmente”.
Ao lado dele um pequeno caderno de anotações. Na capa preta, trabalhada em relevos, um pentagrama de prata reluzia em sintonia com a pintura de raios azuis nos fundos do artefato. Logo abaixo se lia a inscrição “Luber Umbrarium”. Pegou sem cerimônia uma caneta esferográfica preta e começou a rabiscar na desafiadora primeira página.

Quando nos reencontramos senti a vibração vinda de teus olhos. Algo descrito apenas por palavras por mim desconhecidas. Naquele momento único pairou sobre mim uma nuvem de chuva ácida a qual corroeu toda a minha coragem e fez-me garoto novamente. Desafiadora era tua presença. Uma estátua de mármore repousando sobre um palanque de prata. Em teu pescoço pendia um belo pentagrama, algo que pra mim não fazia o menor sentido a não ser em histórias da inquisição.
Em pouco tempo chegou-se a mim e mal pude conter minha excitação. Em meu peito um batuque incessante ameaçava arrancar-me o coração pela boca. As palavras, as primeiras palavras – “Olhos negros, tão negros quanto teus cabelos longos”. E tuas mãos afagaram-me a farta cabeleira, meus olhos fecharam-se e o som teus lábios formaram a sinfonia perfeita. “Boca atraente, lábio de veludo e sorriso infantil”.

Largou a caneta com a mesma pressa que lágrimas mancharam a toalha banca sobre a mesa, tão incrustadas quanto tinta ali permaneceram. Do café a fumaça já não mais emanava e o aroma exótico perdeu seu vigor. Um raio de sol entrava ameaçadoramente pela janela semi-aberta. Num momento breve respirou com dificuldade e tornou a abrir o caderno.

Belos anos passamos juntos. Em pouco tempo fez-me entender o significado de minha jornada, de minha alma e deu-me um sentido para caminhar sem olhar para trás. O mesmo pentagrama que em teu pescoço brilhava agora ganha força na capa deste diário - os deuses são testemunha de tua sina.

Lembro-me ainda das palavras finais:
“Nesse mundo de ilusões de que adianta a sanidade? Faça parte da terra dos loucos e deixe o mundo perfeito para os ignorantes.”
Naquele momento ensinou-me a única coisa que uma mãe o poderia – não sou o único a sonhar. Esta última lição foi aprendida e no ciclo infinito ainda nos encontraremos – em breve.

Rolou pela mesa e no chão fez seu ultimo som – a caneta estilhaçada formou uma poça de sangue negro no piso da cozinha.

Alexandre C. Martins - 25 de agosto de 2008

Velho Pescador


O homem se esforça para ver além. Posta as mãos um pouco acima dos olhos para protegê-los do sol forte. Nada. Continua a vislumbrar apenas o mar, praticamente sem ondas. Há algo ali, é fato. Em meio à calmaria das águas há uma pequena porção de ondulações circulares evidenciando sua teoria. Sob a água, é claro, pensa com convicção. Outrora teria raciocinado mais, está cansado.

Senta-se na beira do deque de madeira e lança linha ao mar. Pescar certamente levará embora a sensação de companhia. “Que coisa”. Nada de peixes, nem fisgadas. Tudo muito parado, mesmo debaixo d’água. Retira a linha para trocar a isca, talvez fosse esse o motivo. Da minhoca para o pedaço de pão semimastigado. “Vai resolver”.

Cantarola. Já que nada pesca, ao menos o som de sua voz quebra o incômodo silêncio. Uma fisgada, a linha se movimenta. Uma segunda, uma terceira, mas nada de pegar o safado. Os dedos puxam incessantemente a linha para confundir a presa, mas nada resolve. “A minhoca se balançando teria feito melhor que o pão”.

Cansado desiste. Que fique na água o peixe. Tão logo pensa nisso revê as ondulações, bem próximas do deque. Sente um calafrio e pensa em sair dali, mas não o faz. Fugir de ondinhas não era coisa de homem. “Negócio é entender”.

Fecha os olhos e põem-se a imaginar: Vê na água, exatamente no meio do circulo ondulatório, um peixe. Fita o ser pequeno com olhos curiosos, sentindo o mesmo vindo do outro.

Está ali o hobbie e a fome. Mas não uma fome arrebatadora, quem sabe apenas a vontade de comer algo diferente. Ou mesmo de sentir-se o caçador - comer aquilo que em suas garras cai e que, com eficiência, é pego. “Fico com a segunda”. Sorri.

Irrita-se. Abre os olhos e nada mais de ondulações. “Estou ficando louco... ou velho”. Ri da própria frase, como se o peixe a recitasse. Mas alguns minutos bastam para dar-se conta de que ainda há algo estranho por ali. Esfrega os olhos, abre-os o máximo que pode e avalia a imensidão de água à sua frente.

Da água surge o mistério, mas não emergindo desta. Esteve o tempo todo ali. Aquela figura estranha parece ser feita da mais pura e cristalina água. Não consegue, o homem, definir exatamente a forma, esta muda a cada minuto e dela gotas de água nascem caindo sobre a superfície oceânica. A coisa começa a crescer, expandir-se. Uma onda se forma, enorme. Avança contra ele com rapidez e o engloba. Sente o gélido tocar do líquido, mas nem sequer se move. A onda não o esmaga, não o fere. Está ali são e salvo.

Olha para as mãos, não estão mais enrugadas. Jovem, sente o sabor da juventude, levanta-se e num piscar de olhos se atira na água. Nada, nada muito até desaparecer no horizonte.

Uma mulher chega ao deque. Abaixa-se perante os artefatos de pesca do marido. Olha para o mar, não o vê. Olha em torno – nada. “Onde estará?”.

Alexandre C. Martins – 22 de agosto de 2008

Vulcano


Vulcano, filho de Juno e dos ventos
Forja em teu fogo a espada e o escudo
Mostra ao mundo a infidelidade
(escondida pela beleza do amor)

Em tua deforme face brilha teu poder
Empresta teu fruto ao homem
Enlaça em tua rede a verdade escondida

Vulcano, filho de Juno e dos ventos
Apóia o fraco com tuas armas
Mesmo que Zeus o abandone!

Alexandre C. Martins - 21 de agosto de 2008

Luber Umbrarium


Nas sombras o poder se oculta
Da pena para o pergaminho
Num fluxo energético constante

Longe dos olhos alheios
Agarra-se a anônima existência

Nos ritos nada se compara
A sabedoria nele contida

Ao bruxo serve fiel
Numa verdade amarelada

Haverá sempre uma nova página
E a pena jamais cala!

Alexandre C. Martins - 19 de agosto de 2008